segunda-feira, 7 de março de 2016

O nosso território e os valores que nos direcionam





Li a seguinte frase num post de José Luiz Adeve (o Cometa), publicado no facebook:  

"O território não é apenas o resultado da superposição de um conjunto de sistemas naturais e um conjunto de coisas criadas pelo homem. O território é o chão e mais a população, isto é, uma identidade, o fato e o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence” (Milton Santos)

Pois é... pertencer ao território em que está, amá-lo como parte da sua história, ou ainda, como sendo o lugar onde ela (a história) se constrói. O lugar influencia o desenvolvimento das pessoas e as pessoas influenciam o desenvolvimento do lugar. 

E ao pensar no espaço em que vivemos normalmente damos aos lideres a responsabilidade de fazer com que seja  do jeito que gostaríamos que fosse. Como exemplos podemos pensar no território fechado da nossa casa, do nosso espaço de trabalho, nosso município, nosso país...

Observando cada um dos exemplos citados, podemos notar que aqueles que o compõem normalmente colocam nos seus líderes a responsabilidade de como se dispõem e são organizados,, quais os benefícios,e comodidades proporcionadas, como são tratados, deixando para segundo plano sobre a responsabilidade pessoal..

O líder realmente tem uma responsabilidade muito grande, seja na tarefa de mobilizar ou de legislar para que o território seja organizado, limpo, com definição de objetivos claros e específicos e levantados democraticamente para cada um desses lugares, e ações que façam com que os objetivos sejam alcançados de acordo com a responsabilidade de cada um.

Mas os valores daqueles que pertencem a cada um desses territórios devem estar em sintonia, como a ética, a responsabilidade, o compromisso, a importância das relações interpessoais. E, principalmente, acreditar na capacidade pessoal, muito importante para a obtenção de resultados positivos. E devo repetir sobre resultados baseados na ética.

Para ilustrar, podemos pensar numa casa, onde se combina como ela deve ser organizada, quem vai fazer o que e quando. Todos devem estar comprometidos com os combinados e acreditarem na importância dos afazeres divididos, porque senão surgem os conflitos e as maneiras de burlar, ou apenas cumprir tarefas pela obediência cega.

Assim, volta-se a ideia dos valores e da importância que se dá ao ambiente que se vive e às pessoas com quem se convive. E desse modo, me remeto ao trecho abaixo de uma entrevista dada por Paulo Freire à revista Nova Escola, tendo Moacir Gadotti fazendo as perguntas. 


Moacir Gadotti - O brasileiro é um povo que vive de esperanças,só que uma atrás da outra vão embora, e sempre vem a frustração depois. Foi assim com as diretas já, com a Constituinte, com o Collor... Hoje vivemos um momento de incertezas, parece que o chão que pisamos está se movendo, e nós, no Brasil, não conseguimos enxergar a dia de amanhã. De onde vem essa esperança de que é possível transformar o mundo a que você se refere em Pedagogia da Esperança?

Paulo Freire - É uma pergunta que exige uma reflexão, mesmo que sucinta, em torno de nós próprios. O que estamos sendo no mundo João, Maria, Carlos? E não importa aí a classe social, embora esta tenha uma influência fantástica na forma como estamos sendo. Mas o que estamos sendo, por que estamos sendo, como estamos sendo, quem estamos sendo? Isso me permite fazer comparações. Por exemplo: olho agora o quintalzinho de minha casa e vejo outros seres também vivos, mas de ordem natural -uma jabuticabeira e o canil onde está o Jim, um pastor alemão -, e já poderia estabelecer comparações entre como eu estou sendo, como a jabuticabeira está sendo e como o Jim está sendo. Sem ir muito longe, eu chego a uma primeira conclusão, de que as relações que há entre eu e as minhas jabuticabeiras e entre eu e Jim não são as mesmas que há entre eu e você. Há uma qualidade diferente nessas relações. Segundo, eu posso tomar como referência, para me distinguir dos outros dois seres (o Jim e a jabuticabeira), que, embora os três seres sejamos finitos, inacabados, incompletos, imperfeitos, somente eu entre os três sei que somos finitos, inacabados e incompletos. A jabuticabeira não sabe. Ela tem outro tipo de saber.


Gadotti - É isso que você quer dizer quando escreve no livro que "eu sou esperançoso, por imperativo existencial"?

Freire - É isso também. Eu sou esperançoso porque não posso deixar de ser esperançoso como ser humano. Esse ser que é finito e que se sabe finito, e porque é inacabado sabendo que é inacabado, necessariamente é um ser que procura. Não importa que a maioria esteja sem procurar. Estar sem procurar é o resultado, é o imobilismo imposto pelas circunstâncias em que não pudemos procurar. Mas não é a natureza do ser. É por isso que quando as grandes massas sofridas estão, como eu chamo em Pedagogia da Oprimido, mais imersas do que emersas na realidade social, política e econômica, estão sendo proibidas de ser. Por isso é que elas ficam apáticas. A esperança não floresce na apatia. Cabe ao pedagogo, ao filósofo, ao político, aos que estão compreendendo a razão de ser da apatia das massas - e às vezes da apatia de si mesmos - a briga pela esperança. Eu não posso desistir da esperança porque eu sei, primeiro, que ela é ontológica. Eu sei que não posso continuar sendo humano se eu faço desaparecer de mim a esperança e a briga por ela. A esperança não é uma doação. Ela faz parte de mim como o ar que respiro. Se não houver ar, eu morro. Se não houver esperança, não tem por que continuar o histórico. A esperança é a história, entende? No momento em que você definitivamente perde a esperança, você cai no imobilismo. E aí você é tão jabuticabeira quanto a jabuticabeira.

A entrevista na íntegra está no seguinte endereço:
http://revistaescola.abril.com.br/formacao/paulo-freire-podemos-reinventar-mundo-entrevista-640706.shtml?utm_source=redesabril_novaescola&utm_medium=facebook&utm_campaign=entrevista&utm_content=link

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