terça-feira, 31 de maio de 2016

O valioso tempo


Ao completar 50 anos, me vi com o desejo de escrever sobre o tempo. Parece tão desnecessário, uma vez que encontramos tantas palavras escritas por poetas e cientistas, mas me atrevo a escrever afirmações que talvez já circulem por aí. Uma que se repete tantas e tantas vezes é a questão da rapidez. "Como o tempo passa rápido!"

Nossa história vai se construindo, e esse ser humano que vamos nos formando vai se completando nas relações que se entrelaçam. Relações essas que vão se encaixando através das pessoas que conhecemos, seja através dos laços sanguíneos ou seres especiais que aparecem como presentes nas nossas vidas. 

Não preciso fechar os olhos para as lembranças passarem por mim em formato de cenas rápidas. Aliás, nem dá para fechar os olhos, porque enquanto lembramos de situações passadas nada em volta para. Continuamos...
E nesse continuar, me sinto próxima das palavras de Mario de Andrade, e apelo ao poema O valioso tempo dos maduros:

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui
para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar
da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo
de secretário geral do coral.
‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa…
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua
mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

https://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2010/03/23/o-valioso-tempo-dos-maduros-de-mario-de-andrade/ > acesso em 20/05/2016.

Nenhum comentário:

Postar um comentário